Quando família e escola falam línguas diferentes, o aluno paga a conta

O impacto silencioso dos desencontros na educação

Por Patrícia Lobo

Todo mundo quer o melhor para o aluno. Pais, professores, coordenação, escola inteira. O problema começa quando cada lado passa mensagens diferentes — e quem fica no meio desse desencontro é a criança ou o adolescente. A ciência do comportamento é clara: quando família e escola não caminham alinhadas, o aluno sente, reage e muda o comportamento.

Um exemplo muito comum está nos limites de convivência. Na escola, combinados como respeitar o colega, esperar a vez de falar ou aceitar frustrações fazem parte do dia a dia. Em casa, muitas vezes por cansaço ou excesso de proteção, esses mesmos comportamentos são relativizados: “deixa pra lá”, “ele é assim mesmo”, “não vale a pena discutir”. A criança percebe rapidamente essa diferença — e entra em conflito.

Outro ponto frequente é a responsabilidade com tarefas e compromissos. A escola trabalha rotina, organização e cumprimento de combinados. Já em casa, atrasos, faltas e esquecimento acabam sendo normalizados. Quando isso se repete, o aluno aprende que esforço e compromisso dependem do lugar em que ele está. Não é má vontade — é confusão de referência.

A psicologia institucional explica que regras só funcionam quando são coerentes nos ambientes em que a criança circula. Quando cada adulto diz uma coisa diferente, o cérebro infantil não sabe a quem seguir. O resultado aparece em forma de insegurança, resistência, questionamentos constantes ou queda de rendimento. Não é desobediência: é falta de clareza.

A teoria sistêmica familiar ajuda a entender de forma simples: a criança faz parte de vários sistemas ao mesmo tempo — família, escola, grupo social. Quando esses sistemas não se conversam, ela tenta se ajustar sozinha. E esse esforço emocional cobra um preço, que pode surgir como irritação, desmotivação para aprender, dificuldade de concentração ou comportamento desafiador.

Na adolescência, isso fica ainda mais evidente. O jovem percebe rapidamente quando há desencontro entre adultos e passa a testar limites: “na escola exigem”, “em casa não cobram”. Não por manipulação consciente, mas porque o sistema permite essas brechas. Quando ninguém fala a mesma língua, o adolescente tenta criar a própria regra.

Alinhar família e escola não significa concordar com tudo o tempo todo. Significa dialogar, compreender expectativas e transmitir mensagens parecidas ao aluno. Quando os adultos estão em sintonia, a criança se sente mais segura, aprende melhor e organiza seu comportamento com mais facilidade.

Esse alinhamento começa com algo simples: escuta. Pais confiando mais na escola. Escola entendendo a realidade das famílias. A ciência do comportamento mostra que ambientes previsíveis, coerentes e afetivos favorecem não só a aprendizagem, mas a saúde emocional.No fim das contas, a pergunta mais importante não é “quem está certo?”, mas “o que ajuda o aluno?”. Quando família e escola caminham juntas, o aluno sente o chão firme. Quando cada um fala uma língua diferente, ele tenta se equilibrar sozinho — e, quase sempre, paga a conta.